
Porque Flamengo era o time do meu pai; porque Flamengo é o time desta cracaço chamado Petkovic; e porque, como disse meu mano
Eduardo Goldenberg em mais um texto definitivo (abaixo), quando o Mengo é campeão, o povo brasileiro é mais feliz. Nem que seja por um dia.
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ORAÇÃO DE UM BRASILEIRO
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Salve, São Sebastião do Rio de Janeiro, Oxóssi para o povo carioca, de cujo peito arrancamos, dia após dia, nós cariocas que amamos a terra em que nascemos, as flechas que te ferem e te fazem sangrar e sofrer. É que meu peito, padroeiro, anda apertado demais e bem sabes as razões. Tenho tentado manter o humor em alta, fazendo graça das coisas mais sérias, como bem me disse, dia desses, meu irmão Fernando Szegeri, filho de Xangô, sincretizado também como São Judas Tadeu, padroeiro do meu Flamengo, numa tentativa - vá lá - desesperada de enfrentar os revezes que me tem chegado e de me sentir um vencedor. É que domingo, padroeiro, o Flamengo disputa a chance de sagrar-se Campeão Brasileiro de 2009, o que não acontece desde 1992, quando eu tinha - e como passa, o tempo... - 23 anos de idade. Campeão cinco vezes, o Flamengo conquistou seu primeiro Campeonato Brasileiro em 1980, eu tinha 11 anos de idade, e eu estava lá, menino de calças curtas, no gigante de concreto, vendo o artilheiro das decisões, o Nunes, estufar as redes do adversário a poucos minutos do final da partida. Quando eu lembro de mim mesmo, aos 11 anos de idade, lembro-me do Henrique, hoje com 17 anos, meu sobrinho, meu afilhado, que nunca viu o Flamengo conquistar um Campeonato Brasileiro e que estará, domingo, ao meu lado, no mesmíssimo estádio, 29 anos depois daquele Flamengo e Atlético Mineiro. Penso também na Helena, com pouco mais de um ano de idade, filha do meu compadre Leo Boechat, no Daniel, filho recém-nascido de Diego Moreira, ele filho de Zambi e de Oxalá, afilhado de Pedra Preta da Guia e Jurema, cambono de Maria Fagundes, protegido e guiado por Caboclo Arruda e amigo de seu Zé Pilintra, e penso também no Felipe, filho de minha amada amiga Betinha e de meu do-peito, Flavinho, que completará um mês de vida na segunda-feira, dia 07 de dezembro, um dia depois da decisão de domingo. Eu não sei quem foi disse, viu, meu padroeiro?, que o futebol não é uma questão de vida ou morte, é muito mais importante que isso. É evidente que isso é só mais um desses exageros que temperam a vida, é só mais uma dessas verdades inexplicáveis que só ao coração e à alma interessam, mas o fato é que esse carioca que te fala em tom de prece (e todas as preces são pagãs e necessariamente pagãs quando envolvem o futebol, que a gente tem dores maiores carecendo de oração e fé) está assim, como direi?, profundamente emocionado com a iminência do sexto título do Flamengo, o primeiro das três crianças a que me referi. No dia 27 de setembro desse 2009 que está quase acabando eu preparei, depois da idéia do meu mano Luiz Antônio Simas, filho da Ogum, como eu, um caruru pras crianças, pros erês, e Daniel e Felipe ainda estavam na barriga de suas mães, da Lucimar e da Betinha. E eu queria, padroeiro, ter braços enormes para tê-los no colo no domingo, sentado nas arquibancadas de concreto do Maracanã para que eles pudessem ver, com seus olhinhos curiosos e assustados, o Flamengo disputar o título - e conquistá-lo. Para que eles pudessem, depois, anos depois, já sozinhos e com as próprias pernas, subindo a rampa do maior do mundo (será sempre o maior do mundo!), bater no peito e dizer "eu estava aqui em 2009" - ah, esses orgulhos que o torcedor tem... Amanhã eu vou levar o Henrique à igreja de São Judas Tadeu, no Cosme Velho. Amanhã, posso apostar, o padre rezará a missa com a camisa do Flamengo sob a batina e diante do escudo do rubro-negro, encravado na parede da catedral, atrás da pia de batismo. Eu acho que eu queria, também, batizar amanhã o Daniel e o Felipe naquela igreja. Eu não sou católico, sabes disso também. Mas amanhã eu quero ir lá. Eu sou mesmo é brasileiro, e minha religião é o Brasil. Quem não compreende o Brasil não entende a religião Brasil - e o Brasil, também não lembro quem disse isso, não é para principiantes. E o Brasil, padroeiro, sei que também sabes disso, há de amanhecer infinitamente mais feliz se o Flamengo sagrar-se campeão no domingo. Se o domingo for do Mengo, de norte a sul do Brasil, nas coberturas triplex e nos barracos das favelas, nos gabinetes dos Ministérios e nos presídios, nos hospitais, nos manicômios, na cidade e no campo, no litoral e na serra, nos mais longínquos rincões dessa terra, o povo há de ser mais feliz, ainda que por alguns dias - as mágicas do futebol. E eu, padroeiro, estou precisando demais viver isso, sabe? Rogai por nós, rubro-negros, agora e na hora em que devemos ser fortes. Até.