segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Agô, Oxum

Agô, mi Oxum. Agradeço por exerceres presença tão marcante em minha vida neste ano de 2009. Agô, pelas vezes em que, distraído nas atribulações do dia, não tive olhos de ver os teus sinais no meu caminho e nem ouvidos de ouvir a tua voz. Agô, pela felicidade que me deste de graça e pela tristeza que, não obstante, insisti em espalhar no mundo, mesmo sem querer. Agô, mi Oxum, por colocar em minhas mãos a tua beleza de amante e a tua benevolência de mãe, dando-me para sempre o ímpeto do jovem apaixonado e a compreensão do velho. Que teu Axé se estenda também aos meus amigos e amigas, meus irmãos de fé e de luta, e aos leitores que acompanham os meus textos à distância. Agô, mi Oxum. E que 2010 possa ser regido por tua graça e delicadeza. Ora iê-iê ô!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A tragédia do Natal brasileiro

As luzinhas de Natal piscam, verdes e azuis, na decoração do hotel em frente, e não me deixam dormir. Em verdade, não durmo porque necessito escrever e porque ainda resta um pouco de vinho. (Não sei porque citei o vinho, não pretendo beber agora). É a inspiração da madrugada que me põe na boca o gosto agridoce das estrelas e esta angústia que precede o nascimento de um texto.
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Mas o que eu quero dizer é que as luzes de Natal me deixam triste – sobretudo as verdes e as azuis – e que o calor afro-cubano que faz no meu apartamento não combina com os vestígios de nozes e castanhas deixados sobre a mesa da cozinha. Um cigarro acalentaria o meu espírito natalino; mas são três horas da manhã e não há cigarros na carteira. O que há são os flocos de neve falsa no pinheirinho do hotel e eles não me dizem absolutamente nada.
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É chegada a hora de fechar as cortinas para que o acende-apaga do luminoso me deixe escrever em paz. É chegada a hora de colocar um disco na vitrola. (Escrevo vitrola e me sinto o homem mais velho do mundo). É chegada a hora de abrir as portas da percepção para que a sincronicidade se faça presente: puxo aleatoriamente um LP na estante e me vêm à mão o álbum Canções do Natal Brasileiro.
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Com roupas de veludo em pleno verão tropical, a figura importada do Papai Noel aparece deslocada na capa do disco: numa roda de samba plena de estereótipos, Santa Claus toca um cavaquinho remendado, entre perus e garrafas de cerveja, com direito à cachorro vira-lata debaixo da mesa e mulata sambando na soleira da porta. É triste o Natal como triste é a pobreza brasileira, escoltada por uma falsa alegria que me faz pensar novamente nos flocos de neve decorativos.
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Pela fresta da janela posso ver o mendigo dormindo sob a marquise e esta visão me desobriga a escrever sobre ele. Não há inspiração que se sustente ante o fato de que a humanidade é tão inviável em dezembro quanto em janeiro. O chiado da agulha sobre o vinil é, neste instante, a única realidade possível e a voz de Carlos Galhardo passeia pela casa feito incenso:
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“Anoiteceu
O sino gemeu
A gente ficou
Feliz a rezar
Papai Noel
Vê se você tem
A felicidade
Pra você me dar”
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Boas Festas é o nome da canção que agora ouço, comovido como o diabo, lembrando da infância em São Cristóvão, mais tarde em São Vicente, bairros, cidades com nomes de santos, as velas douradas que a avó acendia na ceia, o medo de mastigar a hóstia, o burrico do presépio, barquinhos levando flores para Iemanjá, gira de marinheiro na areia, o cheiro de alfazema que as ondas devolviam à praia, lembranças embaladas pela voz de Carlos Galhardo.
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Na emoção que já compromete a lógica do texto, penso na música que me leva de volta aos tempos de criança. Penso em Assis Valente, o autor de Boas Festas, e é como se ele estivesse presente aqui, nesta sala, entre os livros e os discos, talvez sentado na poltrona do abajur, olhar perdido na marinha do Caymmi (que comprei na Bahia). Voltar ao mar: este é o seu desejo quando chega o Natal com suas ostentações delirantes.
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O mulato Assis Valente era baiano e nasceu não se sabe quando. Consta que foi sequestrado por um louco e abandonado nas ruas do Rio, em 1927. A família nunca mais o encontrou. Ganhou a vida como auxiliar de farmácia, protético, comediante de circo e compositor de samba. Talvez tenha sido o autor mais gravado por Carmen Miranda, mas imortalizou-se mesmo entre os pequenos ao compor a única canção natalina verdadeiramente brasileira.
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O rapaz passou sozinho o Natal de 32. Em seu quarto havia a gravura de uma menina pobrezinha, triste como ele, de pé sobre a cama, esperando Papai Noel chegar com seu presente. Desta gravura, deste clichê real, o sambista extraiu os versos:
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“Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
Bem assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel
Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel não vem
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem”
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A melodia é melancólica, como convém às canções de Natal, mas traz algo de marchinha carnavalesca, que também não deixa de ter a sua tristeza. Os versos, por sua vez, não mentem para as crianças pobres: nem todo mundo é filho de Papai Noel. Todos podem ser filhos de Deus, a verdadeira razão do Natal, mas o que interessa é o Papai Noel e seu saco de presentes. Uma dura crítica ao consumismo.
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Assis Valente, que veio me visitar nesta madrugada, pedia apenas felicidade – presente que nunca teve. Sua canção natalina celebra os tormentos da solidão que jamais o abandonou. Ele só conseguiu morrer na terceira tentativa de suicídio, ao ingerir formicida com guaraná num banco da Praia do Russell, na Glória, em março de 1958. Entre beijos, abraços e fartas ceias, poucos prestam atenção na mensagem da música. Esta talvez seja a maior tragédia do Natal brasileiro.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Ainda sobre o Bar do Pachola

Há poucos dias escrevi aqui um texto sobre o novo Bar do Pachola, inaugurado recentemente na Marginal do Piçarrão. Minha maior crítica era sobre o uso do nome, que eu desconfiava ser indevido. Os proprietários do novo Bar do Pachola não gostaram da crítica e disseram que seu único objetivo era "fazer uma singela homenagem ao velho Herminio". Chegaram a dizer que eu não tinha moral para falar em nome do Pachola. Então resolvi ligar para o Wilson Garcia, em Catalão. Depois de tentar várias vezes sem sucesso, hoje consegui falar com o sobrinho-neto do fundador e último membro da família a presidir o boteco.
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O Bar do Pachola era um botequim centenário e tradicional em Campinas. Um patrimônio local que encerrou suas atividades quando Wilson, o Pacholinha, mudou-se para Goiás e vendeu o ponto. Não tardou para que os dois proprietários que o sucederam jogassem a tradição no lixo. O último deles deu o tiro de misericórdia ao trocar os azulejos, abolir os vidros de pimenta e de cachaça caseira, rasgar o cardápio e transformar o antigo boteco numa lanchonete sem vida e sem alma. Para quem conheceu o verdadeiro Bar do Pachola, o fechamento do Box 63, na situação em que se encontrava, foi até um alívio.
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Por isso é que não titubeei em criticar o uso do nome para batizar o novo estabelecimento. Não porque o considero intocável, mas porque tinha a impressão de que a família Garcia, na figura do Wilson, de sua esposa Marilda e de seu filho Flávio, não havia sido consultada ou mesmo comunicada sobre a intenção de se reabrir o Bar do Pachola em outro ponto e com outra cara. Era uma impressão que se confirmou.
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Mas o que eu queria dizer desde o início é que liguei ao Pacholinha e ele me autorizou - e pediu - que publicasse as informações abaixo:
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- Ele (Wilson Garcia) não sabia que outro Bar do Pachola estava funcionando em Campinas;
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- Em nenhum momento ele foi consultado sobre o uso do nome;
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- Ninguém o convidou para a inauguração;
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- Por estes motivos, ele não reconhece o novo Bar do Pachola como uma homenagem;
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- Wilson disse ainda que não registrou o nome do bar, mas que Campinas sabe e reconhece que a "marca" pertence, por direito, à família Garcia.
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Conhecendo como conheço o Pacholinha, digo com toda a convicção que me move: se alguém, se qualquer pessoa no mundo, ligasse para Wilson Garcia pedindo a autorização para usar o nome do bar, teria obtido na mesma hora. Um simples gesto de consideração, de reconhecimento para com o número baixo, e tudo estaria resolvido. Pacholinha jamais seria obstáculo para quem quisesse homenagear, de coração, o botequim que sua família fundou em 1908, quando a espanhola Maria Garcia chegou de navio, sozinha, trazendo um pirralho no ventre, para trabalhar no Box 63 do Mercado Municipal.
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Bastava um telefonema. No entanto, Wilson Garcia, herdeiro direto da espanhola Maria, sequer foi convidado para o regabofe da inauguração.
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Fica provado que as minhas críticas não eram tão infundadas assim.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Enquanto eles se desesperam...

Alguns fatos são tão óbvios, tão evidentes, que tenho certa preguiça de discutí-los. Por exemplo: o fato de que Lula tem feito o melhor governo da história republicana do Brasil. Nestes oito anos de mandato, o PT promoveu uma verdadeira revolução em vários setores da sociedade. Uma revolução facilmente percebida por quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir.
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O engraçado é que os mais descontentes com o Governo são justamente aquela parcela da esquerda radical, que nutria expectativas (ingênuas) de que Lula conduziria o País ao socialismo, e a maioria esmagadora da classe média alta, sempre preconceituosa e conservadora, que apostava no fracasso do "sem dedo", que tinha certeza de que o "analfabeto" faria um governo catastrófico e perderia o cargo no meio da mandato. Como isto não aconteceu - muito pelo contrário, pois a popularidade de Lula é astronômica e o Brasil está prestes de se tornar a quinta potência mundial, superando França e Inglaterra - acentuou-se entre a elite a mentalidade golpista, muitas vezes disfarçada de piadinhas (aqui) ou deboche (aqui).
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Mas não adianta. O consumo de Lexotan aumentou drasticamente na República Morumbi-Leblon com a notícia de que Dilma chegou aos 23% e consolidou o segundo lugar na disputa presidencial de 2010. E isso porque a campanha ainda nem começou.
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Mas, enquanto eles arrancam os cabelos e se desesperam, o Brasil nada de braçadas:
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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Walter Alfaiate

Walter Alfaiate está internado desde o fim de novembro, com um quadro de insuficiência respiratória. Seu estado de saúde não é dos melhores. Como ainda ocorre neste País, um artista de seu quilate, um sambista maiúsculo, está precisando da ajuda dos amigos para garantir um tratamento médico com o mínimo de dignidade. Por isso, um grande show beneficente acontecerá no Circo Voador, Rio de Janeiro, na próxima segunda. Dentre as atrações confirmadas estão Wilson Moreira, Monarco e a Velha Guarda da Portela, Arlindo Cruz, Dudu Nobre, Alcione, Moyseis Marques, Diogo Nogueira... E quem mais aparecer de surpresa. Em nome do samba, compareçam.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A Noite do Rei

Pela primeira vez em 50 anos de carreira, Roberto Carlos foi obrigado a adiar a gravação do seu especial de dezembro. O show, que deveria ter acontecido na semana passada, foi remarcado para ontem, terça-feira, no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo. Sem tocar no assunto das fortes dores musculares que o fustigaram no começo do mês, o cantor abriu o espetáculo falando da idade avançada e arrancou risos complacentes: "Desde que nasci – e sei que faz muito tempo...".
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Poucos artistas no mundo podem se dar o luxo de cantar o mesmo repertório ao longo de décadas e ainda assim continuar arrastando e emocionando multidões. Roberto é um deles. Tudo neste personagem mítico parece imutável: do corte de cabelo ao velho terno azul. A impressão é de que o Rei, assim como o Natal, sempre houve e sempre haverá.
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É possível buscar explicações racionais para o fascínio que sua figura exerce no palco – da produção global que o cerca ao naipe dos músicos que o acompanham, muitos são os fatores que fazem de Roberto Carlos o maior cantor popular do Brasil em todos os tempos. Mas só estas explicações não satisfazem.
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O Rei está impregnado na memória do povo brasileiro. Todos, em maior ou menor grau, temos uma lembrança envolvendo uma música de sua autoria, independente de faixa etária ou classe social. Esta memória coletiva – e afetiva – é a responsável pela catarse que acontece sempre que o mito repete o gesto de caminhar lentamente em direção ao microfone e, após a introdução apoteótica da orquestra, entoar com a inconfundível voz anasalada os versos atemporais: "Quando eu estou aqui/ eu vivo este momento lindo...".
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A abertura com Emoções é previsível, mas sempre única. Frank Sinatra também era previsível quando encerrava seus shows com New York, New York. No entanto, foi um crooner genial. Não seria a repetição uma virtude? Assim como as pessoas se sentem seguras quando constatam que a comida de seu restaurante preferido continua a mesma apesar da passagem inexorável do tempo, também os fãs do Rei se sentem acolhidos em canções como Detalhes. É como voltar para casa depois de uma viagem longa. E ele sabe disso.
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"Vou cantar agora uma música que nunca pode ficar de fora. Uma vez deixei de cantar e parece que ficou faltando alguma coisa", comentou o cantor no momento mais introspectivo da noite. Ao banquinho e munido de violão, tal e qual João Gilberto (Roberto iniciou a carreira imitando o pai da bossa nova), colocou a orquestra e a multidão em respeitoso silêncio: "Não adianta nem tentar me esquecer/ durante muito tempo em sua vida/ eu vou viver".
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A presença mais aguardada do evento era a da atriz Dira Paes, a nova musa de RC. Assim como Camila Pitanga no especial de 2007, Dira foi convidada a cantar Cama e Mesa. Ela fingiu se esquivar, como se tudo não tivesse sido ensaiado, e avisou que só cantava no chuveiro. "Infelizmente não foi possível montar o chuveiro aqui no palco", brincou Roberto, "mas eu gostaria muito que você cantasse comigo". A plateia masculina se manifestou efusivamente pela primeira vez. Como cantora, porém, Dira Paes mostrou ser uma boa atriz.
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O encerramento do show, tão previsível quanto a abertura, levantou o público nas arquibancadas do Ginásio do Ibirapuera: acompanhado por uma orquestra em êxtase, cantando Jesus Cristo enquanto distribuía rosas vermelhas aos convidados da primeira fila, o Rei repetiu uma história de Natal já muito conhecida dos brasileiros. Para a Psicologia, a repetição da estrutura mítica individual reedita o mito familiar. É impossível entender como ama a família brasileira sem entender a obra de Roberto Carlos.

Os mais belos mitos afro-brasileiros

O escritor Marco Catalão, mestre em Teoria e História Literária pela Unicamp, acaba de lançar a coleção Os Mais Belos Mitos Afro-brasileiros, pela editora Adonis. A série preencher uma lacuna na literatura infantil ao publicar seis livros com o objetivo de apresentar a mitologia africana para crianças em idade escolar. A ideia é trabalhar com elas, a partir da fantasia, aspectos de uma cultura milenar que ainda é alvo de muito preconceito.
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Além dos livros, a coleção é formada por quebra-cabeça, jogo de memória, cenário temático com personagens e um DVD com contadores de histórias. Os livros são ilustrados por Masserani e trazem a história de Exu (Os lavradores infiéis), Oxóssi (O caçador de uma flecha só), Oxalá (Justiça seja feita!), Iansã (O segredo de Oiá), Iroco (Promessa é dívida) e Otim (O príncipe que não sorria).
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Catalão, que já havia lançado livros dedicados aos mitos indígenas e gregos, diz que a mitologia afro-brasileira é fundamental para a formação da identidade nacional. A coleção revela parte desta profundidade. “As narrativas apresentam mitos elaborados, com humor muito fino e uma visão de mundo que traz muitas revelações”, explica o autor, que pesquisou e recolheu nas obras de Reginaldo Prandi e Pierre Verger material para as suas histórias.
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Lendas bastante conhecidas pelos seguidores do candomblé, mas desconhecidas da maioria das pessoas, algumas foram adaptadas para o leitor iniciante, mas sem perder a essência do mito: a árvore que pode arrancar as próprias raízes e sair para passear; as abóboras que guardam diamantes no lugar das sementes; a mulher que se transforma em búfala; o caçador de uma flecha só; o príncipe que nunca sorria etc. Segundo o autor, uma beleza que não se esgota numa única leitura.
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Bruno Ribeiro – O Brasil é o país de maior população negra fora da África, mas, paradoxalmente, a mitologia afro-brasileira é muito pouco conhecida no país. Por quê?
Marco Catalão –
A mitologia africana, sendo parte da cultura negra, é alvo de preconceito. Quando lancei o livro sobre mitologia grega, por exemplo, a reação das pessoas foi bem diferente. É como se escrever sobre mitos gregos fosse algo natural, enquanto escrever sobre mitos africanos fosse uma coisa estranha ou errada. Isso vem, em parte, do preconceito contra o candomblé, que é o espaço onde estes mitos se manifestam.
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Recentemente, no Rio de Janeiro, uma professora foi proibida de trabalhar um livro de lendas afro-brasileiras com seus alunos. A justificativa da escola foi que as histórias eram associadas ao candomblé.
A professora não estava fazendo apologia religiosa, mas apenas discutindo aspectos literários das lendas de Exu, um orixá importantíssimo dentro da mitologia. As pessoas que dizem isso são as mesmas que acham normal colocar um crucifixo ou rezar o Pai-Nosso na sala de aula, como se ninguém fosse se sentir incomodado.
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Quais são os valores que a mitologia afro-brasileira pode transmitir para as crianças?
Modestamente, ela quer contribuir para a questão da identidade nacional. Quando trabalhei a questão dos mitos com as crianças, muitas delas, identificadas com os personagens, passaram a dizer que tinham orgulho de suas origens afro-brasileiras. Se nós temos consciência histórica de quem somos, não nos tornamos vítimas de outras culturas, deixamos de ser colonizados.
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Por que a lei que obriga as escolas brasileiras a incluírem em seu currículo a História da África está demorando tanto a ser aplicada?
Não sei. A gente esbarra em todo o tipo de justificativa, mas acho que a disciplina tem enfrentado extrema resistência, até porque muitos professores e diretores da rede pública são ligados à igrejas neo-pentecostais.
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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Mais um crime de racismo

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Deu no Cosmo Online:
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"Três estudantes de Medicina de uma faculdade particular de Ribeirão Preto, no interior paulista, acusados de racismo contra um trabalhador de 55 anos, foram soltos no sábado à noite. Os advogados de defesa conseguiram a liberdade provisória concedida pelo juiz plantonista Ricardo Braga Montesserat. O trio foi autuado em flagrante por racismo, crime inafiançável e que prevê pena de um a três anos de prisão. Emílio Pechulo Ederson, de 20 anos, Felipe Grion Trevisani, de 21, e Abrahão Afiune Júnior, de 19, foram presos suspeitos de agredir Geraldo Garcia, que seguia de bicicleta para o trabalho no início da manhã de sábado. De carro, os jovens se aproximaram e um deles teria desferido um golpe nas costas de Garcia, com um tapete enrolado, e gritando “negro”. Segundo testemunhas, os três teriam vibrado com a ação. Dois vigilantes que tinham saído de um evento e testemunharam o ocorrido seguiram e detiveram os estudantes numa avenida próxima. A Polícia Militar (PM) os levou ao 1º Plantão Policial. A defesa alegou que não houve agressão nem conotação racial para que os três jovens ficassem presos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo".
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Este botequim, pequeno e sujo, mas honesto, repudia a decisão do juiz Ricardo Braga Montesserat de liberar o trio de racistas, ao que tudo indica formado por filhinhos-de-papai que se julgam superiores por serem brancos e ricos. A defesa tem todo o direito de alegar que não houve agressão ou conotação racial no ato dos rapazes. Este, afinal, é o papel do advogado de defesa. O papel deplorável coube ao juiz plantonista, conhecedor da lei e do que representa o crime inafiançável. Não houve sequer fiança - o que me leva à suposição de que o Sr. Ricardo Braga Montesserat não vê gravidade na agressão de um senhor de 55 anos, um trabalhador brasileiro, não por acaso um negro, a caminho do trabalho. Posso apostar que não teria sido esta a decisão do juiz se, por ventura, o agressor fosse o homem da bicicleta. A decisão pode até me revoltar, mas não me surpreende em nada. No futuro, os agressores do negro também estarão ocupando altos cargos na profissão que escolheram. E acharão natural que os pobres morram nas filas dos hospitais públicos porque não possuem plano de saúde.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Cores Cariocas


São Sebastião esbarra na tinturaria
E no verão do Rio, um arrebol lilás
Se dilui na aguarrás do dia.
Um diamante de luz move suas arestas
E a lua empresta, gris, o entardecer dolente.
Rubro e impaciente, o mar rubi
Sangra os seus surfistas prateados.
E o cor-de-rosa do horizonte laqueado
Combina uma asa-delta amarela
Com o vento azul-piscina:
Nelson Sargento pintando a favela
E o Chicabom marrom da menina.
Cores cariocas se misturam no meu coração
Se uma chuva verde-jade cai sobre a cidade
No preto-e-branco do calçadão.
E luzes de mercúrio, no alto do Corcovado,
Iluminam o Cristo recortado
Sobre o abismo azul da imensidão

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Viva Nöel

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Hoje faz anos o menino Noel de Medeiros Rosa, o único gênio brasileiro. Para ele, que embalou e ainda embala o amor e a tristeza dos boêmios atemporais, não poderia haver presente melhor e mais bonito do que uma declaração de afeto, em forma de crônica, assinada pelo também grande Luiz Antonio Simas. Leiam em forma de oração:
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"Nöel Rosa é um dos inventores do Brasil, gênio da raça. Deveria ser ensinado nas escolas, cantado nas universidades, bebido nos botequins, saudado nas esquinas e reverenciado nos terreiros.

Nöel Rosa é Exu e Oxalá ao mesmo tempo - homem da rua, dono do corpo, malandro maneiro, azougue de céu e terra, civilizador afoito e velho sábio. Feito Obatalá bebeu o vinho de palma, dormiu na sombra da palmeira, largou a medicina como se larga a tarefa de Olodumare, zombou da sorte, não criou o mundo mas moldou no verso - ritmado em samba - o homem.

Nöel Rosa é tapa na cara do preconceito e prova evidente de que o maior elemento civilizador do Brasil é o samba. Não pensou em remover favela - subiu o morro, aprendeu, ensinou, bateu, levou e inventou a vida entre o pandeiro e a viola. Branco azedo entre os pretos, feito camisa do Botafogo.

Nöel Rosa é conversa de botequim, futebol no rádio de pilha, conta pendurada, caldo verde pra curar ressaca, conversa fiada, sacanagem no portão, punheta de garoto, pêra uva maçã salada mista, selo carniça nova, pipa no céu, bola ou búlica, vida pela sete, com tabela na caçapa do meio. Brasil que gosta do Brasil.

Nöel Rosa é festa da Penha, novena, quermesse, tambor de mina, sessão de mesa, doce de Cosme, baile nos infernos, flor e navalha, afago e pernada, gol de letra e gol de mão, pomba da paz e galo de rinha, Estácio, Tijuca, Vila - o Brasil que sabe, e Morengueira confirma, que em casa de malandro o vagabundo não pede emprego.

Nöel Rosa viveu no tempo em que do morro da Mangueira se enxergava a Vila Isabel. Hoje, entre o Buraco Quente e o Boulevart, existe o prédio da Universidade do Estado do Rio de Janeiro pra esculhambar a vista - e não se ensina o poeta, e não se canta o poeta na universidade: Pior pra ela.

Nöel Rosa faz aniversário hoje: nasceu no dia 11 de dezembro de 1910. Nunca morreu; encantou-se em Vila Isabel aos vinte e seis anos, feito Mestre da Jurema, Zé Pilintra, caboclo de pena, boiadeiro de laço, erê de cachoeira, bugre do mato, malandro da encruza e exu catiço.

Nöel Rosa é da família dos encantados que moram nas esquinas, campos de várzea e botecos vagabundos, e baixam quando a noite é grande e a cachaça é farta: Mané Garrincha, Aleijadinho, Bispo do Rosário, João da Baiana, Cartola, Mãe Senhora, Geraldo Assoviador, Villa Lobos, Bimba, Pastinha, Camafeu de Oxóssi, Lima Barreto e Zulu, mestre do Favela, são da mesma guma de ajuremados - os caboclos nossos, brasileiros."



[Fundo musical: De Babado, de Noel Rosa, interpretado por Ivan Lins, Nei Lopes, Nelson Sargento e Zeca Pagodinho. Com este música, composta na década de 20, Noel provavelmente inaugurou, sem saber, o partido-alto, categoria de samba calcada na valorização do improviso de rimas a partir de um refrão pré-estabelecido]

A força do Szegeri

Ontem, quando soube que eu fora convidado para participar da gravação do Especial de fim de ano do Rei, meu mano Fernando Szegeri me ligou esbaforido:
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- Quero ir junto! Quero ir junto!
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E chorava de dar dó o homem da barba amazônica, inconformado com a impossibilidade de participar da festa:
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- Deixe-me ir em seu lugar! Eu escrevo a matéria! Me fala quantos toques de texto devo mandar!
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Dez minutos depois, já resignado, encheu-me de perguntas:
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- Será que o Erasmo fará uma participação? A tia do Simas disse que ele e o Roberto estão brigados... Você vai ficar pertinho do Rei? Vai entrevistá-lo? Será que vai poder entrar no camarim?
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Diante de novas negativas, do outro lado da linha fez-se um breve silêncio, seguido de um pedido:
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- Traz um autógrafo do Roberto Carlos pra mim?
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Respondi que seria muito difícil (eu queria dizer impossível e não tive coragem), mas que faria o que estivesse ao meu alcance.
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Meia hora depois, recebo a notícia de que o Rei havia sofrido uma contratura muscular e a gravação fora cancelada. Imediatamente, e desconfiando de mironga das brabas, paro no boteco mais próximo (Rei do Joelho, sem trocadilhos) e mando um torpedo ao Szegeri: “Abortando a missão. O Rei teve um mal súbito”.
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A resposta veio no mesmo minuto: “Ele pode”.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Boteco em quadrinhos

Recebi o convite acima e o recado abaixo, os dois enviados pela leitora Livia. Tomo a liberdade de repassar aos interessados. Gostei da iniciativa. O Bar da Estação é, realmente, um dos mais pitorescos da cidade. Está localizado na plataforma do prédio da antiga estação ferroviária da Fepasa, que hoje funciona como repartição pública na Praça Marechal Floriano Peixoto, Centro de Campinas.
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Caro Bruno,
Como leitora assídua da sua coluna, estou enviando para você um convite especial. Nós, frequentadores do Bar da Estação Cultura, gostaríamos muito de poder contar com a sua presença na sexta-feira próxima, dia 11 de dezembro, a partir das 18 hs. Fiz uma exposição em homenagem ao referido bar, quadrinhos retratando o seu cotidiano no final da tarde. Estes quadrinhos foram feitos em homenagem ao Bar da Estação Cultura, ponto de encontro de vários amigos que se reúnem para colocar o papo em dia, se divertir e se irritar com Marcão e Emilinho, os famosos irmãos Trá-Trá, que tornam as nossos fim de tarde após o trabalho mais engraçados. Vários personagens típicos aqui se encontram frequentemente, discussões acirradas acontecem sobre vários assuntos e quase sempre não se chega a uma solução para os grandes problemas da humanidade. Observando constantemente as conversas e debates travados no bar, resolvi retratá-los nestas páginas. Histórias e personagens que não seriam possíveis sem a participação de todos os frequentadores como protagonistas.
Lívia Persicano Stephan
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PS: Deixo também um link para quem quiser ouvir a minha entrevista sobre samba na Rádio CBN. O programa, comandado pela jornalista Anna Fonseca, foi ao ar no sábado passado, mas pode ser escutado aqui.
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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

RAPIDINHAS SOBRE FUTEBOL

Quanto ao título do Flamengo: justíssimo. Além de provar que a mania de consultar matemáticos para saber quem tem mais chances de ser campeão é uma tremenda bobagem - o Mengo tinha 1% de chance no início do segundo turno - o clube rubro-negro deu uma lição de humildade - o time, não a sua torcida, que honrou a fama de ser a mais arrogante do Brasil e passou a semana cantando vitória antes da hora. O crédito pela postura equilibrada é todo do iluminado Andrade, que de quebra tornou-se o primeiro treinador negro a ser campeão brasileiro (!!!);

Vale destacar também a forma digna com que o Grêmio se portou em campo contra o Flamengo. Fui dos que rejeitaram a hipótese de que o time gaúcho entregaria o jogo para prejudicar o Inter, seu maior rival. O Grêmio, com o orgulho que caracteriza os times gaúchos, jogou de igual para igual e por pouco não estragou a festa no Maracanã. Com seu time de homens, o Grêmio valorizou a vitória do Flamengo e deixa este campeonato com a cabeça erguida e o dever cumprido;

A emoção de Petkovic ao falar de seu amor pelo Flamengo lembrou-me uma crônica do Vinicius de Moraes que dizia mais ou menos o seguinte: "O carioca é, antes de tudo, um estado de espírito. É o sujeito que, tendo nascido em qualquer parte do Brasil ou do mundo, adere à cidade e nela se sente completamente em casa, em meio à sua adorável desorganização". O sérvio Petkovic, que saiu de um país em guerra para se tornar ídolo da maior torcida do planeta, é o mais novo carioca da gema;

Os deuses da bola quiseram que Flamengo e Fluminense, os maiores rivais do futebol mundial, terminassem o campeonato nas pontas opostas da tabela: um, campeão; outro, último colocado. A campanha tricolor, no entanto, acabou sendo admirável pelo que conteve de inusitado: a impressionante reação, talvez sem precedentes no futebol brasileiro, iniciada no segundo turno, quando não mais perdeu. Praticamente rebaixado, o Flu escapou da degola na última rodada e escreveu um dos capítulos mais heroicos de sua história recente. Foi, a trajetória do tricolor carioca, até mais comovente que a do campeão rubro-negro;

Sobre a Copa de 2010 tenho breves comentários. Quanto à chave do Brasil, formada por Coreia do Norte, Costa do Marfim e Portugal. Gostei. Estão dizendo por aí que caímos num grupo difícil. Não sei de onde os comentaristas tiraram a ideia de que os nossos adversários podem representar algum perigo. Se for pra ter medo de Costa do Marfim e Portugal, melhor disputar o torneio de várzea de Sorocaba;

Juro que vi jornalista dizendo que o Brasil terá dificuldades para ganhar da Coreia do Norte. Tá certo que ninguém conhece a obscura seleção, visto que a Coreia do Norte deve ser o país mais fechado do mundo. Tudo, inclusive a seleção da Coreia, é controlado por um ditador maluco que atende pelo nome de Kim Jong-il. Em suma: times que jogam sob pressão costumam entrar desmoralizados. Sem falar que os coreanos são rotundos pernas-de-pau. Recentemente, o medíocre Atlético de Sorocaba, da segunda divisão paulista, fez um amistoso contra a seleção da Coreia do Norte, no campo do adversário. E empatou em 0 x 0. O treinador do Atlético, Edu Marangon, revelou (ouça aqui) que os coreanos são radicalmente retranqueiros, que se fecham com oito atrás e não se preocupam minimamente em fazer gols. Apesar do paredão vermelho, vai ser mole. [Palpite: Brasil 4 x 0 Coreia do Norte];

Costa do Marfim é um time fisicamente forte e rápido, mas sem tradição nenhuma no futebol mundial. Além disso, seleções africanas sempre chegam como possíveis zebras e decepcionam suas torcidas. Drogba é um atacante perigoso? Sem dúvida. Mas na última Copa ele chegou cotado para ser artilheiro, marcou um único gol - se não estou enganado - e foi eliminado na primeira fase junto com o time. No fim das contas, as seleções africanas apresentam muita correria e pancada, mas não têm muita objetividade. [Palpite: Brasil 2 x 0 Costa do Marfim];

Portugal será, teoricamente, nosso adversário mais difícil na primeira fase. Achei muito benéfico para o Brasil ter em sua chave um adversário forte e tradicional. Acho que enfrentar Portugal na terceira rodada será de grande valia para o psicológico do grupo nas oitavas-de-final, quando o caldo começa a engrossar. Pesa ao nosso favor o fato de Portugal ser um freguês histórico do Brasil. Cristiano Ronaldo pode ser boa pinta, mas não é o gênio que a imprensa esportiva criou. Antes do sorteio, eu havia manifestado meu desejo de ver Portugal no nosso grupo. Deu certo. [Palpite: Brasil 2 x 1 Portugal].

domingo, 6 de dezembro de 2009

Hoje somos todos Flamengo

Porque Flamengo era o time do meu pai; porque Flamengo é o time desta cracaço chamado Petkovic; e porque, como disse meu mano Eduardo Goldenberg em mais um texto definitivo (abaixo), quando o Mengo é campeão, o povo brasileiro é mais feliz. Nem que seja por um dia.
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ORAÇÃO DE UM BRASILEIRO
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Salve, São Sebastião do Rio de Janeiro, Oxóssi para o povo carioca, de cujo peito arrancamos, dia após dia, nós cariocas que amamos a terra em que nascemos, as flechas que te ferem e te fazem sangrar e sofrer. É que meu peito, padroeiro, anda apertado demais e bem sabes as razões. Tenho tentado manter o humor em alta, fazendo graça das coisas mais sérias, como bem me disse, dia desses, meu irmão Fernando Szegeri, filho de Xangô, sincretizado também como São Judas Tadeu, padroeiro do meu Flamengo, numa tentativa - vá lá - desesperada de enfrentar os revezes que me tem chegado e de me sentir um vencedor. É que domingo, padroeiro, o Flamengo disputa a chance de sagrar-se Campeão Brasileiro de 2009, o que não acontece desde 1992, quando eu tinha - e como passa, o tempo... - 23 anos de idade. Campeão cinco vezes, o Flamengo conquistou seu primeiro Campeonato Brasileiro em 1980, eu tinha 11 anos de idade, e eu estava lá, menino de calças curtas, no gigante de concreto, vendo o artilheiro das decisões, o Nunes, estufar as redes do adversário a poucos minutos do final da partida. Quando eu lembro de mim mesmo, aos 11 anos de idade, lembro-me do Henrique, hoje com 17 anos, meu sobrinho, meu afilhado, que nunca viu o Flamengo conquistar um Campeonato Brasileiro e que estará, domingo, ao meu lado, no mesmíssimo estádio, 29 anos depois daquele Flamengo e Atlético Mineiro. Penso também na Helena, com pouco mais de um ano de idade, filha do meu compadre Leo Boechat, no Daniel, filho recém-nascido de Diego Moreira, ele filho de Zambi e de Oxalá, afilhado de Pedra Preta da Guia e Jurema, cambono de Maria Fagundes, protegido e guiado por Caboclo Arruda e amigo de seu Zé Pilintra, e penso também no Felipe, filho de minha amada amiga Betinha e de meu do-peito, Flavinho, que completará um mês de vida na segunda-feira, dia 07 de dezembro, um dia depois da decisão de domingo. Eu não sei quem foi disse, viu, meu padroeiro?, que o futebol não é uma questão de vida ou morte, é muito mais importante que isso. É evidente que isso é só mais um desses exageros que temperam a vida, é só mais uma dessas verdades inexplicáveis que só ao coração e à alma interessam, mas o fato é que esse carioca que te fala em tom de prece (e todas as preces são pagãs e necessariamente pagãs quando envolvem o futebol, que a gente tem dores maiores carecendo de oração e fé) está assim, como direi?, profundamente emocionado com a iminência do sexto título do Flamengo, o primeiro das três crianças a que me referi. No dia 27 de setembro desse 2009 que está quase acabando eu preparei, depois da idéia do meu mano Luiz Antônio Simas, filho da Ogum, como eu, um caruru pras crianças, pros erês, e Daniel e Felipe ainda estavam na barriga de suas mães, da Lucimar e da Betinha. E eu queria, padroeiro, ter braços enormes para tê-los no colo no domingo, sentado nas arquibancadas de concreto do Maracanã para que eles pudessem ver, com seus olhinhos curiosos e assustados, o Flamengo disputar o título - e conquistá-lo. Para que eles pudessem, depois, anos depois, já sozinhos e com as próprias pernas, subindo a rampa do maior do mundo (será sempre o maior do mundo!), bater no peito e dizer "eu estava aqui em 2009" - ah, esses orgulhos que o torcedor tem... Amanhã eu vou levar o Henrique à igreja de São Judas Tadeu, no Cosme Velho. Amanhã, posso apostar, o padre rezará a missa com a camisa do Flamengo sob a batina e diante do escudo do rubro-negro, encravado na parede da catedral, atrás da pia de batismo. Eu acho que eu queria, também, batizar amanhã o Daniel e o Felipe naquela igreja. Eu não sou católico, sabes disso também. Mas amanhã eu quero ir lá. Eu sou mesmo é brasileiro, e minha religião é o Brasil. Quem não compreende o Brasil não entende a religião Brasil - e o Brasil, também não lembro quem disse isso, não é para principiantes. E o Brasil, padroeiro, sei que também sabes disso, há de amanhecer infinitamente mais feliz se o Flamengo sagrar-se campeão no domingo. Se o domingo for do Mengo, de norte a sul do Brasil, nas coberturas triplex e nos barracos das favelas, nos gabinetes dos Ministérios e nos presídios, nos hospitais, nos manicômios, na cidade e no campo, no litoral e na serra, nos mais longínquos rincões dessa terra, o povo há de ser mais feliz, ainda que por alguns dias - as mágicas do futebol. E eu, padroeiro, estou precisando demais viver isso, sabe? Rogai por nós, rubro-negros, agora e na hora em que devemos ser fortes. Até.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Elogio ao sujinho

Causou relativa polêmica, na caixa de comentários, o post O Bar do Pachola é inimitável (aqui). Houve, por exemplo, quem não gostou da crítica feita ao uso do nome do falecido boteco para batizar um novo estabelecimento. Ossos do ofício. Porém, o comentário que mais me chamou a atenção, pelo disparate da coisa, foi o assinado por uma certa Vera Lúcia, que insinua ter sido minha professora no final da mensagem. Sinceramente, não me lembro de ter tido aula com ela; mas isto não vem ao caso. O fato é que ela deixou o seguinte desabafo, que publico na íntegra e sem as necessárias correções:
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Bruno, meu querido, fiquei imensamente triste em constatar que ainda existe reporter PRECONCEITUOSO. Digo isso porque no seu blogge o senhor faz menção ao antigo bar do Pachola, tão tradicional como o senhor mesmo diz; um lugar sujo, isso quer dizer sem a minima higiene. Coitado do Pachola deve de estar se revirando no tumulo diante de tanta audacia dita. Outra coisa será que o senhor se esquece que tanto prefeito com mendigo, advogado, taxista etc etc etc... são seres humanos e que Nunca devem ser comparados em uma reportagem. Lembre-se de uma coisa, meu querido: o prefeito de hoje poderá ser o mendigo de amanhã, assim como o advogado um taxista do futuro e um reporter um reciclador do futuro. Então que tal o senhor rever seus conceitos. Fui professora por quase 40 anos e lendo sua reportagem fico muitíssimo triste em ver que ainda existe curso que tornam nossos alunos em sujeitos tão desprezivel.
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Em sinal de respeito à professora e, sobretudo, à memória do saudoso e eterno Pachola, devo dizer que:
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Cara Vera Lúcia:
Quanto à acusação de preconceito que você me faz, sugiro a leitura da série Racismo e Preconceito no Brasil, de minha autoria, linkada na lateral direita do blog, além de acompanhar outros textos sobre este assunto, também assinados por mim, que você poderá ler clicando aqui. A respeito do incômodo causado por eu ter citado o mendigo e o prefeito: aponte-me onde está a comparação. O post ressalta tão somente o caráter democrático do boteco, um troço que anda em falta no mercado. Se você me conhecesse pessoalmente, aliás, saberia que entre o mendigo e o prefeito, prefiro beber na companhia do primeiro. Agora, despropositado mesmo foi o seu espanto em relação à maneira carinhosa como me referi - e me refiro sempre - ao Bar do Pachola. Ora, se até o próprio Wilson Garcia, proprietário da espelunca, se referia ao boteco como sujinho, quem sou eu para dizer o contrário? A senhora tem certeza de que conheceu aquele lugar? A birosca era um luxo: o passarinho da gaiola ciscava em cima da panela de picadinho; o Pachola fumava feito chaminé e jogava as guimbas todas no chão; barata ali era mato; os azulejos não viam água desde a Queda da Bastilha. E, na hora da Ave Maria, quando o Mercado Municipal fechava as portas e não havia banheiro disponível... Nem te conto onde é que a gente mijava... A assepsia do boteco, como a senhora pode notar, era um brinco. Saudações.